Na última segunda-feira (15) saiu em todos os veículos de mídia que Alan Turing, o “pai da computação”, é a mais nova cara da nota de 50 libras do Rei Unido. Essa será uma forma de homenagear o matemático, cujo trabalho foi importantíssimo principalmente para o desenvolvimento dos computadores que usamos atualmente.
Em 2018, o Banco da Inglaterra — a instituição responsável pela emissão do dinheiro, já havia anunciado que o novo rosto das notas seria uma personalidade da ciência e, dentre uma lista de quase mil candidatos, Turing acabou sendo eleito após ter sido escolhido através de uma votação popular.
Mas quem foi Turing? Qual foi o seu papel na história e o que aconteceu com ele no fim de sua vida?
Vida e legado
Alan Mathison Turing nasceu em Paddington, na Inglaterra, no dia 23 de junho de 1912. Desde cedo, Alan já demonstrava interesse pela área da ciência e lógica. Aos 15, por exemplo, ele já resolvia problemas matemáticos complexos — mesmo sem ter estudado cálculo. Com 16 anos ,se descobriu homossexual. Em 1931, Turing se formou na Universidade de Cambridge, onde se graduou em Matemática com honra.
Durante a II Guerra Mundial, Alan trabalhou para a inteligência britânica, em Bletchley Park, em um centro especializado em quebra de códigos. Foi o chefe da Hut 8 — seção responsável pela análise criptográfica da frota naval alemã.
Os Alemãs possuíam uma máquina, a “Enigma Machin”, que foi bastante utilizada durante a II Guerra e era com ela que eles criavam suas mensagens criptografadas. A máquina era tão incrível na época, que diziam que ela era “impossível de ser quebrada!”. Para conseguir decodificar as mensagens, Turing desenvolveu um sistema chamado “Bombe”e assim foi capaz de traduzir os textos dos alemãs.

O Bombe era uma máquina capaz de testar rapidamente diversas combinações até conseguir a definição das mensagens geradas pelo Enigma.
Com o fim da guerra, Alan trabalhou no Laboratório Nacional de Física do Reino unido, onde trabalhou e pesquisou no projeto do programa de armazenamento de dados, o ACE.
Criou o Manchester 1, o primeiro computador com os princípios parecidos com os modelos atuais. O dispositivo tornou-se o mais veloz do mundo (da época), quando em 1950 rodou seu primeiro programa com frequência de 1 MHz — Um milésimo da velocidade dos chips atuais.
Turing desenvolveu ainda o “Teste de Turing”, que foi criado com o objetivo de verificar se o computador é capaz de imitar e pensar como o cérebro humano (teste Voight-Kampff essa é sua origem??). O matemático foi um dos primeiros a pensar na possibilidade de uma máquina ser inteligente (a famosa inteligência artificial).
“Proponho que consideremos a questão: ‘Podem as máquinas pensar?’. Deveríamos começar com as definições do significado dos termos: ‘máquina’ e ‘pensar’. Estas definições poderiam ser elaboradas de forma a reflectir, o melhor possível, o uso normal das palavras. (…) Se os significados das palavras ‘máquina e pensar’ tiverem de ser encontrados por meio de um exame de seu uso habitual, será difícil escapar à conclusão de que o significado da e a resposta à pergunta ‘Podem as máquinas pensar?’ (…)”
— Trecho do artigo “Computação e Inteligência” (1950), de Alan Turing
Mesmo com seus talentos e avanços na área de computação, o matemático também se dedicava a estudos referentes a química, física e biologia.
E mesmo com toda a sua contribuição, ele foi perseguido e humilhado por ser homossexual.
Em 1952, Alan Turing foi julgado criminalmente por “Indecência grosseira”, pois na época o homossexualismo era crime na Inglaterra. Foi destituído de seu cargo no Bletchley Park e humilhado em público. Foi condenado à castração química — que o levou a desenvolver seios, pois era utilizado hormônio feminino no tratamento.
Alan morreu aos 41 anos por intoxicação de cianeto. Inicialmente acreditou-se que ele teria se suicidado, mas alguns estudiosos alegam que a causa da morte foi devido a uma intoxicação que se deu por conta dos remédios que ele tomava.
A homossexualidade só foi descriminalizada no Reino Unido em 1967.
Perdão para Turing
Em 2009, o então primeiro-ministro britânico Gordon Brown pediu desculpas póstumas em nome do governo.
Apenas em 2013, a Rainha Elizabeth II concedeu a Alan Turing o perdão real póstumo por sua condenação de 52. Onze cientistas britânicos, entre eles Stephen Hawking, solicitaram o perdão real anteriormente, mas não foram atendidos.
O perdão foi garantido pela Prerrogativa Real de Compaixão, depois de um pedido do ministro da Justiça, Chris Grayling, para quem a atuação de Turing salvou milhares de vidas.
Ao ler sobre a vida de Turing, não consigo deixar de pensar em quantas vidas foram destruídas por conta dessa acusação. Ele recebeu o “perdão real”, mas há outros milhares que foram arruinados pela homofobia descabida de um governo.
Os LGBT+ sofreram muito ao longo da história a ponto de até seus clichês acabarem negados. Por que quase não há uma história de amor bem melosa com final feliz com casais homoafetivos? Por que todos os finais precisam ser sempre tristes e mostrando luta e dor? (Mas isso é papo para outro dia. Não perca o foco, Rafa).
Além disso, até quando teremos que acompanhar pessoas incríveis que muito contribuem para áreas de pesquisa, artes, filosofia, línguas e tantas outras serem simplesmente ignoradas e apagadas devido as suas orientações sexuais, gênero, raça ou qualquer outra questão?

Na nova nota, além da foto de Turing, terá uma citação do matemático realizada durante uma entrevista ao jornal The Times em 11 de junho de 1949. “Esta é apenas uma amostra do que está por vir, e apenas a sombra do que vai ser”. Espero que essa frase também reflita a tão sonhada evolução da nossa sociedade, onde preconceitos não ditarão mais quem deve vir à luz.

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