Um pouco sobre minha relação com mesas

Há muito tempo meu sonho era ter uma mesa no meu quarto na qual eu pudesse “desenvolver a minha criatividade e ter um espaço para estudar” (como podem notar, já havia um discurso pronto para justificar tal vontade caso alguém questionasse).

Dois anos atrás mais ou menos, consegui comprar uma mesa. Ela é de madeira e é aquele tipo montada com cavaletes. Ela tem 1,7m de comprimento +- e era perfeita. Levar a mesa da loja para casa exigiu desenvoltura, duas pessoas, um uber e um ônibus.

Minha mãe, que sempre gostou de artesanato e de dar um toque pessoal nas coisas, resolveu pintar o tampo da mesa. Ficou parecendo o uniforme do Power Rangers, mas adorei! Era uma mesa de Power Rangers só pra mim! Comprei até um porta-lápis com formato de coração para colocar as trocentas canetas que compro compulsivamente e das quais sinto pena de usar.

Minha mesa era fantástica! E estava tudo pronto para depositar todo meu mundo nela.

Só tinha um problema: não tive uma cadeira adequada. Minha vó me emprestou uma das cadeiras de sua velha mesa que fica na cozinha dela para que eu pudesse usar até juntar grana o bastante para uma mega e confortável ultra ajustável e que aceitasse perfeitamente a minha bunda cadeira (sonho com uma cadeira gamer, não nego).

Estava tudo resolvido, não é mesmo? Já tinha a mesa, uma cadeira, meu notebook, várias canetas e cadernos. Todas as ferramentas estavam ali prontas para aceitar meu mundo.

Até que a cadeira começou a me dar muitas dores nas costas e nos quadris (se não for a cadeira gamer, minha bunda não aceita). Até que voltei a usar a cama como mesa e espaço para estudar e fazer qualquer outra coisa. Até que minha mesa se tornou um depósito de roupas. Até que a cadeira virou apoio para notebook pra quando meu namorado e eu queremos assistir alguma coisa na cama.

Lá se foi a utilidade real da mesa. Ela já não servia para ser a estrutura base do meu mundo criativo.

Um dia, vi que a mesa estava abandonada demais e que minha mãe sim precisava de um lugar dela para fazer as coisas administrativas e criativas dela. A mesa de 1,7 saiu do meu quarto, entrou uma mesa ajustável de R$50 reais da casa e vídeo ( que foi adquirida meses antes da mesa de madeira chegar em casa)

Agora, estou aqui todo dia procurando uma mesa menor — também de cavalete, pois amo, e usando isso como base argumentativa quando sou obrigada a me explicar, de maneira exagerada e ridícula, o porquê de não estudar o bastante ou de não colocar em prática tudo aquilo que eu quero.

No fim das contas, a mesa é só uma desculpa dos meus medos e do meu desespero com as falhas. Enquanto o escudo da mesa estiver ativo, poderei mentir para mim mesma e negar tudo o que sou capaz de fazer e ser só porque não tenho coragem de dar um primeiro passo.

Ainda sim, preciso de uma mesa. Não há coluna que aguente essa barra de usar um travesseiro como apoio.

Obs: Não consegui achar uma foto para apresentar-lhe a mesa com toda a sua dignidade e beleza, então deixo a sua imaginação trabalhar.

Foto Destaque: Hege In France

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