Assistido | “Special”: Os diversos armários

Sou uma pessoa com muita dificuldade (leia-se: preguiça) de acompanhar séries. Isso vem, provavelmente, da minha imensa incapacidade em assistir coisas por muito tempo. Logo, quando surge a oportunidade de ver uma boa história acontecendo durante pouco tempo e com personagens tão interessantes e complexos, não posso perder.

Foi assim que “Special” me pegou de primeira. De segunda, a culpa foi do Ryan O’Connell: O responsável por dar vida ao protagonista, pelo roteiro e pelo livro que originou a produção. Ele é ótimo, simpático e te mantém interessado. Outro detalhe a respeito dessa produção, é que ninguém menos que Jim Parsons (o Sheldon, de The Big Bang Theory) é o produtor executivo.

A série conta um pouco da vida de Ryan: Um jovem gay de 28 anos, que apresenta um paralisia cerebral em grau moderado e que quer fazer algo da vida. Morando com a sua mãe e lamentando a sua condição, o nosso cara resolve que quer trabalhar, então ele consegue estagiar na revista digital “Eggwoke”. Lá ele faz amizade com a Kim Laghari (Punam Patel) que é MARAVILHOSA DEMAIS(!!!) e coisas acontecem.

Livro escrito pelo próprio Ryan O’Connel inspirou a série

Os episódios têm duração máxima de 15 minutos e isso em nenhum momento atrapalha a construção da história. Acompanhamos o crescimento do Ryan e a sua autoestima com a doença, seu desejo de viver sua sexualidade e todos os questionamentos millennials que passam pela nossa cabeça todos os dias. A paralisia cerebral é o “Monstro do armário” de Ryan. É o que ele precisa se abrir para o mundo todas as vezes — muito antes da sua orientação sexual.

Em seu ambiente de trabalho, ele chega a utilizar um atropelamento que havia acontecido no dia anterior como causa de seu estado físico. Admitir sua verdadeira condição, o que leva a sua dependência é o armário de Ryan. Os armários que nos aprisionam são os mais diversos e a forma que os monstros tem é dado por nós mesmos.

Ryan O’Connell em cena

Utilizar essa questão como principal ponto de um personagem gay é muito interessante, principalmente se levar em consideração a abordagem geral aplicada a outras séries com protagonistas LGBT+ (como a australiana “Please Like Me”), que trabalham a vida amorosa e a questão de ser homo. Queremos ver mais LGBT+ na mídia? COM CERTEZA! Mas também queremos outras questões e universos nesse meio (no aguardo do dia em que criarão um personagem LGBT+ como vilão de sci-fi).

Karen Kayes (Jessica Anne Hech), a mãe do protagonista, nos leva a questionar e a pensar nas relações de dependência que temos em via dupla às vezes com nossos pais e que a vida existe sim pra eles. Ela precisa aprender a lidar com o crescimento e a vontade de independência do Ryan ao mesmo tempo em que começa a entender que ela é uma mulher com uma vida e não apenas uma mãe. Ao meu ver, é a personagem mais complexa da série. O questionamento a respeito de sua identidade devido ao extremo cuidado que tem com os outros é mostrada com excelência e delicadeza.

Mãe e filho

Karen nos permite reconhecer os defeitos de Ryan, já que ele não a trata com a mesma atenção que dá aos amigos ao longo de seu crescimento. Além disso, ela começa a lidar com as próprias questões da idade, visto que começa a perceber que ainda há muito o que viver, mas que ainda há correntes que a prendem.

Há muitos armários a serem abertos.

Não seria possível falar de Special sem mencionar Kim Laghari: Uma escritora reconhecida por sua atitude “body positive”, que tem uma questão a respeito de como deve ser vista pelo que publica. A forma como seus textos são recebidos pelos leitores e a visão que eles têm dela é um dos pontos levantados. Sua relação com Ryan é encantadora. É uma amizade que os modifica (principalmente ao Ryan) e que os abre para si mesmos.

Special é divertido e aborda a vivência da sexualidade, a busca pela independência e aceitação própria, amizades tóxicas,a individualidade de nossos pais e muitas outras questões de modo sensível e pontual. Os 15 minutos são muito bem desenvolvidos, deixando aquele anseio pela próxima temporada. A série nos mostra que cada pessoa tem um armário do qual precisa sair, mas que cada um sabe o peso da chave para destrancar a porta.

O livro autobiográfico, escrito por Ryan O’Connell, “‘I’m Special: And other lies we tell ourselves”, que originou a série, foi publicado no Brasil pela Galera Record. Ele já se conta à venda em todas as lojas do ramo e também em formato e-book.

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